Balduíno Rambo, um padre e naturalista gaúcho, conheceu os Campos de Cima da Serra na década de 1940. A geografia às vezes distópica de mais de 21.000 km2 e 1.200 metros de altitude fica numa borda entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A visita do padre e seu assombro diante de um lugar cinematográfico e com uma beleza tão contraditória foi determinante para a criação do Parque dos Aparados da Serra, de 1959, e anos depois o da Serra Geral, em 1992.
O que o Padre Rambo aprendeu e descreveu nos seus livros só foi possível pelas trocas com o Povo dos Peraus. Maribel, filha de Marçal, um tropeiro que escolheu aquela terra pela mesma razão que Padre Rambo pediu sua conservação, nos contava, durante o matabicho, do tempo em que pisava descalça na geada em meio à neblina para tocar as vacas e depois esquentava os pés onde estavam deitadas.
Quando visitamos Ernandes, o Nando, ele caminhava na companhia de uma porca e alguns cachorros e nos levou até a araucária mais grossa da sua terra, “esta meu pai plantou, ela também é meu pai”, disse-nos esse avô de 80 anos que inspira a neta Julia na arte do laço. Uma menina que apesar da pouca idade coleciona troféus como laçadora e não quer sair de lá. Depois de ver Julia no cavalo e ouvir o Nando contando da sua última prova de laço, que aconteceu meses e não décadas atrás, fomos até a casa de Aclenio, marido de Maria e pai de Acácio. Para chegar até sua casa passamos pelos muros de taipa construídos por ele. Na boa prosa com chimarrão em volta do fogão a lenha já no fim da tarde, repetiu-nos, mais de uma vez, sobre o quanto descrever aquele lugar era falar da sua própria história: “Sei cada árvore, sei de onde tirei cada pedra que está aqui”.
O território como extensão do corpo é típico da cultura kaigangue, os primeiros a habitar os Campos de Cima da Serra, tanto quanto o termo matabicho é típico de Angola e deve ter chegado por aqui pela boca de algum escravizado. Na cultura dos Peraus e de Angola, o primeiro café, antes de se ir para lida, chama-se matabicho. “Primeiro o matabicho, depois o chimarrão”, enfatiza Maribel.

Aclenio. Fotos: Celestino Bastos

Família da Maribel

Família do Nando

Júlia e alguns dos seus prêmios
Era como se estivéssemos a visitar pessoas de uma mesma família. Mas, mais que isso, pessoas que compartilham o olhar e a forma de habitar aquele corpo-território, o que nem sempre acontece nas famílias de sangue. O senso de comunidade e acolhimento marca a forma de ser do Povo dos Peraus.
Nesta região, feita de filhos, netos e bisnetos de tropeiros, de bugres, kaigangues, guaranis, de pessoas escravizadas, de portugueses, italianos e alemães e de estrangeiros de tantos lugares, criou-se, por obra das trocas entre si e com a paisagem, uma cultura mesclada com a altitude, com a neblina, com a garoa e com o ritmo dos ventos, a viração. A mistura de gentes, o clima e a geografia desafiadoras criaram algo muito singular. Uma cultura que não se desvela rápido, tal qual a neblina a cobrir a cachoeira Véu de Noiva. Padre Rambo viu. E viu que aquele lugar precisava ser preservado porque o futuro necessitaria ter a chance de conhecer a arte de cultivar esperas. Só quando a neblina se dissipa algo se revela. Quando se percebe os detalhes entende-se o encantamento de Balbuino Rambo.
Aquela paisagem está a ensinar que nem sempre o mundo funciona na velocidade que queremos. Há um ritmo a ser aprendido. A neblina convida à paciência. A região dos Peraus, esses cânions entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, são a borda, um mundo fronteiriço por força da natureza. Convertendo em beleza o que para uns é distópico. Mas é preciso olhar sem pressa e ter a curiosidade de entender o quanto esquentar os pés onde as vacas estavam deitadas depois de pisar na geada torna-se uma saudade da infância.
O fogão a lenha, o matabicho, o tear, o chimarrão, a viração compõem o encanto, tal qual os encantados que habitam as matas da região e cultivam histórias como a do gritador. O gritador, esse eco de dor de quem sofreu as consequências de encilhar a mãe, é a borda oposta da cultura kaigangue. Foi um tipo de encilhamento da mãe (terra) que destrói as florestas de araucária e esta levando ao esquecimento o manejo do lugar. A consequência disso, dessa alienação, é um mal sofisticado e banalizado visível nas vassouras e no tojo a tomarem conta dos campos, mudando as características até então preservadas desde os tempos da mega fauna, além dos riscos de incêndio.
Esse mal também se percebe nas poucas araucárias e na presença dos caçadores e dos palmiteiros a invadirem as terras. E no silenciamento das tradições que esteriliza as relações, exatamente por cortar o fio das histórias, praticamente Moiras modernas. A interpretação vigente das leis que regulamentam os parques no Brasil, essa mesma diante da qual tem sempre um guarda (no sentido kafkiano), está a transformar lugares como os Parques dos Aparatados da Serra e da Serra Geral em espaços carentes de significados e representações, vazios de valor afetivo, sem relevância para a relação homem-natureza. Os Campos de Cima da Serra também são as pessoas e as histórias que sobrevivem ao tempo. E se foi possível ver o encantamento da neblina é porque Maribel dizia, “olha devagar”.

Nos campos em cima da serra

Envolvidos no projeto “Terra de encontros”
Ao que parece, as intenções originais foram esquecidas. O que ninguém imaginou, quando Marçal e Maria, pais de Maribel, e Nando, o avô de Julia, mostraram aquele lugar para o Padre Rambo, é que o Brasil do asfalto operaria na lógica do afastamento e da alienação e criaria, por força da caneta, um não-lugar. A gestão atual dos parques, um embrólio de interesses entre a concessionaria Urbia Cânions Verdes S/A, o ICMBio e as famílias, causa uma dissimulação das vontades que produz um parque-fortaleza, intocável e estéril, prejudicando a educação ambiental e transformando as tradições, que até então preservaram a região, em atividades ilegais geradoras de multas.
Ao criar fronteiras e fortalezas quando antes só havia bordas, a regulamentação dos parques e o modelo de gestão da concessionária (com valores de ingresso absurdos e inviáveis) afasta pessoas e transforma os cuidadores do lugar em ameaça, além de ignorar séculos de conhecimento sobre o manejo daquelas terras. Os parques-fortalezas ignoram que sem histórias perdem-se os sentidos. Para conseguir perceber a cinematografia do lugar é preciso aprender a ver e quem lá vive ensina essa arte.
A criação dos parques desapropriou o território-corpo de muitas famílias que cuidavam e cuidam daquelas terras e estão lá desde muito antes dos anos 1800. Foram mandadas embora com um valor indenizatório nem sempre recebido. As famílias que resistem vivem a dinâmica da clássica microfísica de poder foucaultiana que impede o cuidado e dificulta os trânsitos, as trocas e os acessos, e veem o manejo ensinado de pais para filhos como ilegal. Institui-se o medo no lugar onde se cultivava a confiança e a cooperação. “É preciso ter coragem”, disse Maribel, enquanto relatava os partos da mãe na casa onde nasceu e hoje recebe visitantes e turistas. Coragem é outro nome para o amor por aquele território. O Povo dos Peraus são remanescentes de tradições que nos inspiram a perceber detalhes.
Das 50 famílias que viviam na região hoje encontram-se 12. As famílias de Maribel, de Nando e de Aclenio, são algumas delas.
Samantha Buglione é brasileira, escritora e psicanalista.
As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.